A caminhada
A menina tinha as feições duras para uma criança. Não
deveria ter mais que dez anos. E, mesmo assim, seu rosto era de uma seriedade lúgubre.
Sua pele clara, em contraste com os cabelos escuros,
deixavam escapar uma ou outra sarda nas bochechas, que a impediam de reluzir
sua brancura por completo.
O vestido branco, reto como uma camisola, parecia muito
maior que ela e, no entanto, a vestia perfeitamente, como uma segunda pele. Não
havia nada que indicasse nenhum sinal de dor em sua face.
Apesar disso, ela estava descalça. Andava sobre os cacos de
vidro no asfalto quente sem parecer senti-los. O sol, brilhando forte e
intenso, fazia com que todo o cenário ao seu redor não passasse de um branco borrão
que a cegava.
E, mesmo assim, ela continuava caminhando. Às vezes,
levantava as mãos para cobrir seus olhos, dando-lhe alguma visão. Quando isso
acontecia, ela estendia as mãos logo depois, tentando tocar naquilo que
enxergava e fazia seus pés sangrarem ainda mais enquanto caminhava mais firme pelo
estímulo, passo após passo, sem vacilar.
A menina, segurou a barra do vestido e se abaixou, deixando
escapar um gemido de dor. Nenhuma lágrima, porém, escapou de seus olhos.
Ergueu-se novamente, com a barra do vestido sujo de sangue onde sua mão o
levantava.
Voltou a cobrir os olhos do sol e sua mão manchou de sangue
a face, próximo aos olhos e também na bochecha. Andava agora com maior esforço, o rosto com a mesma seriedade, marcado agora por um quê de desespero. Parecia
prestes a desmaiar e, ao mesmo tempo, decidida a alcançar.
Pela última vez, colocou a mão na face e sorriu. Parecia
estar próxima de alcançar seu objetivo e, então, vacilou. Seu corpo estremeceu
e ela balançou, os olhos revirando, em um espasmo, desmaiou. Seu corpo tocou o
chão com um barulho assustador, os cacos de vidro tinindo.
Passaram-se segundos que amontoados viraram minutos. Intermináveis,
dolorosos. E, quando esperança não era mais que uma palavra, ela voltou a se
mexer, dando sinal de vida. Agora estava suja da cabeça aos pés de sangue, com
os braços, rostos, pernas e pés cortados.
Ela voltou a se erguer. Uma eternidade de dor e agonia. E,
então, mais três passos e pisou apenas no asfalto que queimava sua sola do pé
sangrenta. Faltava tão pouco, tão pouco, que agora não podia vacilar nem
desistir.
O sol pareceu recuar e seus olhos se arregalaram, suas
pernas vacilaram e ela caiu de joelhos. Pelo resto da estrada corpos vestidos
de branco se estendiam pelo asfalto. O cheiro não era agradável, havia sangue
e vidro para todo o lado. Ela deitou ali e ficou encarando o céu, um mar branco
sem fim, junto aos demais.
Havia chegado.


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