domingo, 22 de abril de 2012

A caminhada


A caminhada


A menina tinha as feições duras para uma criança. Não deveria ter mais que dez anos. E, mesmo assim, seu rosto era de uma seriedade lúgubre.
Sua pele clara, em contraste com os cabelos escuros, deixavam escapar uma ou outra sarda nas bochechas, que a impediam de reluzir sua brancura por completo.
O vestido branco, reto como uma camisola, parecia muito maior que ela e, no entanto, a vestia perfeitamente, como uma segunda pele. Não havia nada que indicasse nenhum sinal de dor em sua face.
Apesar disso, ela estava descalça. Andava sobre os cacos de vidro no asfalto quente sem parecer senti-los. O sol, brilhando forte e intenso, fazia com que todo o cenário ao seu redor não passasse de um branco borrão que a cegava.
E, mesmo assim, ela continuava caminhando. Às vezes, levantava as mãos para cobrir seus olhos, dando-lhe alguma visão. Quando isso acontecia, ela estendia as mãos logo depois, tentando tocar naquilo que enxergava e fazia seus pés sangrarem ainda mais enquanto caminhava mais firme pelo estímulo, passo após passo, sem vacilar.
A menina, segurou a barra do vestido e se abaixou, deixando escapar um gemido de dor. Nenhuma lágrima, porém, escapou de seus olhos. Ergueu-se novamente, com a barra do vestido sujo de sangue onde sua mão o levantava.
Voltou a cobrir os olhos do sol e sua mão manchou de sangue a face, próximo aos olhos e também na bochecha. Andava agora com maior esforço, o rosto com a mesma seriedade, marcado agora por um quê de desespero. Parecia prestes a desmaiar e, ao mesmo tempo, decidida a alcançar.
Pela última vez, colocou a mão na face e sorriu. Parecia estar próxima de alcançar seu objetivo e, então, vacilou. Seu corpo estremeceu e ela balançou, os olhos revirando, em um espasmo, desmaiou. Seu corpo tocou o chão com um barulho assustador, os cacos de vidro tinindo.
Passaram-se segundos que amontoados viraram minutos. Intermináveis, dolorosos. E, quando esperança não era mais que uma palavra, ela voltou a se mexer, dando sinal de vida. Agora estava suja da cabeça aos pés de sangue, com os braços, rostos, pernas e pés cortados.
Ela voltou a se erguer. Uma eternidade de dor e agonia. E, então, mais três passos e pisou apenas no asfalto que queimava sua sola do pé sangrenta. Faltava tão pouco, tão pouco, que agora não podia vacilar nem desistir.
O sol pareceu recuar e seus olhos se arregalaram, suas pernas vacilaram e ela caiu de joelhos. Pelo resto da estrada corpos vestidos de branco se estendiam pelo asfalto. O cheiro não era agradável, havia sangue e vidro para todo o lado. Ela deitou ali e ficou encarando o céu, um mar branco sem fim, junto aos demais.
Havia chegado.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Voltei a escrever

Eu tinha um arquivo do word com umas 50 páginas de poesias. Pode acreditar. E então, lamentavelmente, tudo foi por água abaixo. Todos aqueles textos horríveis – que como estão perdidos – são perfeita obra de arte em minha memória.

E, por isso, durante muito tempo desanimei de escrever. Naquele HD que um técnico considerou inutilizado, textos, poemas, contos, tudo deletado. Portanto, faz pouquíssimo tempo que me animei a escrever de novo. A história sempre esteve lá, sendo construída, todos os dias um pouco. No entanto, sem o devido registro, seu esplendor se perdia no esquecimento.

Vieram as fanfics. Personagens já existentes, uma história base e apenas uma necessidade: uma boia ideia e uma boa escrita. Os leitores e suas palavras de incentivo me diziam: ei, você deveria tentar de novo.

E, bem, eu tentei. Eu estou tentando. Estou escrevendo uma das velhas histórias. Uma das duas que planejei desde a fatídica morte daquele HD. Tudo de novo, do zero.

Existem duas memórias preciosas para mim. Uma delas é de um amigo do CEFET chamado Cleniston. Num concurso de poesias no dia dos namorados, ele leu a poesia que mandei (e não ganhei, aliás). E ao ler, gostar e pedir, ele foi a primeira pessoa que “comprou” algo que escrevi. Não com dinheiro, mas com entusiasmo. Ao dar aquele texto eu pensei: então é isso que os professores de arte passam anos tentando explicar? Colocar no papel não é apenas colocar no papel. É arte. Mas arte de verdade é o contato das palavras do papel com os olhos do leitor. Se ele gostar, como meu amigo, ótimo, se não gostar, como os juízes do concurso, tudo bem. Mas o pequeno fato em si, das palavras saírem uma vez do papel, é que significa arte.

Minha outra memória valiosa é de quando meu amigo Elder leu um texto meu, há muito tempo atrás, sobre um casal que descobria que seriam pais. Seu comentário simples e espantado: “Thayná, e aquele final, hein?” foi tudo que eu precisava. Um texto não é feito para ganhar críticas boas ou más. Ele é feito para comover, espantar, emocionar. E funcionou.

Se escrevo de novo, escrevo à folha, porque é ela que anda tendo tempo para me escutar. Mas escrevo a Elder e um dia escreverei a Cleniston e escreverei ao mundo se ele me permitir. Não tenho grandes pretensões. Isso ficou no passado, na época que pensava que Avril Lagvine fazia rock’n’roll. Meu objetivo é não ser frustrada: colocar no papel o que eu acredito ser grande demais para caber apenas na minha mente. E isso me basta, tem me bastado.

Ah, eu voltei a escrever... Você, blog, deve estar muito contente também, não é? Estou de volta.

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Natal, RN, Brazil
Eu não faço sentido, sou uma crase num ás de copas, uma tesoura sem ponta em meio à linhas de costura, uma flor sem pétalas perante às tropas. Eu faço sentido, de cabeça pra baixo com Cazuza no fone, três metros de fio dental e uma panela de brigadeiro transcendental.

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