sexta-feira, 27 de março de 2009

Perder pessoas vivas

O ser humano nasceu para sentir. O cérebro se utiliza dos nossos sentimentos para funcionar: medo, tristeza, alegria. Todas as sensações influenciam, portanto, no funcionamento de todo nosso metabolismo. O medo dilata a pupila, acelera o coração, prepara para o perigo. A alegria libera endomorfinas que anestesiam as dores físicas e emocionais, além de reforçar o sistema imunológico. A tristeza pode nos levar a insônia, perda de peso, fadiga.

Me pergunto num dia como hoje: e os sentimentos complexos? E aqui me refiro àqueles que ultrapassam o sentimento da tristeza, dor, angustia e desespero, são uma mistura complexa de todos eles. O que fazer exatamente com a dor da perda e o que ela faz conosco?

Nunca conheci um cidadão brasileiro que gostasse de perder. Claro, tirando aquela babaquice de que “quem não perde, não sabe vencer”, ninguém realmente gosta de perder. E qual o real significado de perder uma pessoa? É tão incompreensível que não conseguimos descrever nem consolar. O exemplo para a dor da perda é sempre o mesmo.

Uma ferida que abre devagar, como uma doença lenta e terminal, ou rápida, como um susto, inesperado. As feridas, com o tempo e ação do organismo, simplesmente saram. Como quando nos distraímos e a dor de cabeça parece atenuar. E, de repente, lá está você tendo sentimentos primários novamente: alegria, tristeza, medo. Entretanto, tal qual sofre o diabético, a Ferida da Perda não cicatriza nunca.

A dor, claro, melhora e não é insuportável como quando a ferida se abriu. Mas um leve pensamento, uma lembrança inesperada, uma saudade muito intensa, faz a frágil capa de proteção da cicatriz se romper e o sangramento recomeçar. Sangra e dói do mesmo jeito, numa intensidade que beira à loucura. A ausência do toque, da voz; a saudade dos momentos, das situações inusitadas; o cheiro, o andar, as manias, os defeitos. Tudo parece fazer falta, tudo parece exatamente perfeito a ponto de nos perguntarmos como não demos mais valor, por que não falamos mais uma vez “eu te amo”.



Mas não é isso que me ocorre num dia como hoje. Não espero uma mão amiga ou um abraço solidário, coisas que, francamente, nunca me alcançaram sincera e gratuitamente. É algo diferente, talvez até incompressível. Falo da perda de uma pessoa viva. Quantas pessoas vivas nós já perdemos? Quantas pessoas que vivem ao nosso lado?

Sinto que perdi mais pessoas vivas na minha vida do que de fato enterrei gente querida. Não me refiro a amigos de longas datas que sairam da minha vida, me refiro a pessoas à minha volta. Pessoas que vivem num mundo isolado e idealizado. Pessoas intocáveis, presas numa cápsula de distanciamento. Mas também pessoas de minha confiança, que merecem meu respeito e que colorem minha vida diariamente.

Olhando para algumas pessoas à minha volta, notei que perdemos as pessoas todos os dias um pouco, sem querer, as deixamos escapar devagar. Convivemos com sorrisos previsíveis em conversas superficiais. Lidamos com sorrisos angustiados como se fossem apenas dores de barrigas. De fato, pouco sabemos um do outro, da vida, dos sentimentos.

Hoje quando ouvi poucas palavras, meu coração já doeu. Não foram revelações bombásticas sobre segredos particulares. Foram palavras previsíveis de uma pessoa que vive, e portanto sofre, de uma pessoa que sente, e portanto, ama, entristece, sente medo. A vida do outro é sempre perfeita porque simplesmente não conhecemos o outro. Não conhecemos e (pior!) não nos interessamos por quem consideramos.

E se realmente os sentimentos definem o funcionamento do nosso corpo e, consequentemente, nossa qualidade de vida, estamos confinando tanto nossas emoções para nós mesmos que devíamos ser a geração mais saudável. Mas vejo minha geração deteriorada, vejo um mundo caindo aos pedaços, vejo idéias absurdas para o século em que vivemos. Portanto, os sentimentos complexos, não temos coragem de expressar. Os sorrisos, sim. Algumas lágrimas, é claro. Mas palavras sinceras, ah, essas não. Vivemos uma vida perfeita de mentira. Usando sempre máscaras, sem de verdade exercer a amizade e a sinceridade.

Isso está nos destruindo por dentro, o psicológico, e nos tirando a saúde física. Somos desconhecidos conhecidos, a cada dia mais. Estamos perdendo pessoas vivas mais e mais à medida que o tempo passa. Estamos enterrando pessoas vivas no coração e nos livrando de amores como se fossem descartáveis. E o sentimento de perda é insuportável ferida que nunca sara e não tem cura.

Mas isso é só bobagem.

Boa noite.

2 comentários:

Unknown disse...

Me identifiquei tanto com esse texto, que está difícil saber por onde começar a comentar! Mas no geral, acredito que também perdi muitas pessoas vivas. E lamento que nossa geração esteja deteriorada, isso me torna mais difícil exercer amizade em termos de quantidade.
- O novo visual do blog está muito fofim! (^-^=

Abraço,
Kha

Anônimo disse...

não é bem assim não concordo com tudo, mas sei que isso você não quer entender, embora sinta-me parecido. uma mão se estende, mas as vezes não a queremos...


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Eu não faço sentido, sou uma crase num ás de copas, uma tesoura sem ponta em meio à linhas de costura, uma flor sem pétalas perante às tropas. Eu faço sentido, de cabeça pra baixo com Cazuza no fone, três metros de fio dental e uma panela de brigadeiro transcendental.

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